24 de abr de 2010

Nadas

Chamou-lhe a atenção o título da fotografia: “Nadas”.
‘Vou espiar os meus primos’, pensou o autor, ele próprio um Nada.
Assim, este mineiro curioso, sempre metido em peripécias imaginárias,
Abriu a gaveta e ali deu uma boa espiada.
Nada?
Qual o quê!
Arregala os olhos, vê naquilo uma mulher deitada.
Os cotovelos dobrados sugerem as mãos sob a cabeça,
Elevando-a para fitar o abaixo e assistir ao espetáculo.
No primeiro plano, vê as mamas volumosas.
E depois o ventre de gravidez avançada,
E é provável que veja suas pernas elevadas
E também a figura mascarada do obstetra de testa suada
No entanto, a partir daí, a câmera japonesa,
De alta tecnologia e sensibilidade,
Registra outra imagem,
Bastante relevante,
Mas de duvidosa veracidade.
Aguça agora, amiga do olhaescrito,
A tua boa vontade.
Observe, numa outra cor, projetando-se do abdome grávido.
Um círculo maior, uma onda irradiada.
E este círculo, por sua vez, inflamado por tênue claridade
Plena de significado
Pois até mesmo um tolo, carecendo de imaginação,
Sabe que este auroreal clarão
Ilumina o mistério,
Matizando o tempo chegado,
O momento exato
De se preencher o vazio,
Que ao Nada se reduz,
Ao fazer a criação
Entrar em sua luz.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bonitos e delicados textos, lindas imagens.Afinação total. Parabéns.
Yara

Anônimo disse...

Adorei a obra "Nadas". Eu vi uma mulher nadadora ( veja os ombros largos dela), olhando para os seus pés.
Gosto muito da criatividade da artista e de como o escritor brinca com as palavras. Eles formam um casal perfeito!
O côncavo da lente e o convexo das palavras.
Adoro a sensibilidade dos dois!

beijos,

Simone Sem Sartre