6 de jun de 2010

Seu Silva! Uma história...

Ouvi pra lá de tantas histórias sobre cães e gatos, todas de gentes da cidade que tiveram encurtadas suas casas, engaiolados, pode assim ser dito. Pois que tenho história, talvez não tão igual, mas parecida diferentemente. Sempre tivemos – minha família quando ainda era uma família de pai, mãe e 3 filhos – em casa, cachorros. Isso porque pensávamos que gatos eram de rua, mesmo que tendo nascido com boa raça, como era de ser sempre visto em enciclopédias. O Tom, aquele que ia com o Jerry, não era verdadeiramente um gato. Era um artifício de maldade. Pensando adultamente creio que representavam a guerra fria com seus conflitos intercorrentes sem chegar em definitivo numa guerra. Assim pensava até minha adolescência. O cão era o verdadeiro amigo do homem, assim dizia o dito. Tivemos um, o Dino, vira-lata preto, que era ótimo goleiro. Mas o primeirão era o Tito, fox-paulistinha, primeirão porque foi o primeiro que se achegou à família. E chegou causando confusão. A irmã mais velha de meu pai tinha o apelido de Tita. Ficou muito amuada, essa tia. Crescemos, todos adultos, espaços diferentes, cada um prum canto, tinha eu a irredutível convicção que animal, em apartamento, só o ser humano, mesmo. Igual quase que muita gente. Ocorre que, por um vão do destino, coube a mim cuidar mais de perto de meu pai, quando se preparava para o fim. Comprei um canário, o Luar, que dei o nome causa de um tio que gostava e que estava falecido – o nome era Luar de trás pra começo – que cantava, cantava bonito. Mas a ave era insuficiente para preencher certo vago de presença de meu pai. Então, um dia, uma amiga que é budista – e que recolhe e abriga e se não fica, dá destino bom a gatos – mo disse: você precisa arrumar um gato para seu pai. E eu: Imagina!!!!!!!! Nunca tivemos gato em casa e a bem da verdade da realidade passada, tínhamos que gato era coisa de rua, mesmo, como já dito. E minha amiga insistia delicadamente, citando até a Nise da Silveira, porque gato ajuda nessa coisa da afetividade. Enfim, certo sábado, essa amiga pegou-me para arranjar um gato pro meu pai mas que seria meu, pelos cuidados. Fomos num bazar de gatos abandonados, já vacinados. Na minha cachola inventei que o meu primeiro gato seria gata rajada e de 3 cores, preta, vermelha e cinza, igual de uma foto que havia visto de um felino grego. Mas, em lá chegando, veio a moça e mostrou-me uma gata mínima, orelhuda, zoiuda e eu pensei – coisas do imaginário inconsciente – não era essa gata a que pensava em ter. Mas, ao mesmo tempo, meditei: não posso simplesmente dizer não quero essa gata porque ela não é vermelha, preta e cinza. Então, escolhi a escolhida e pediram para eu dar um nome. Assim, na lata! Que nome? Inventei um que eu já tinha e já sabia qual seria: Bromélia Maria. Levei minha gata Brô para casa e, surpreendentemente, milagrou-se a coisa. Meu pai e eu – pela primeira vez na vida – tivemos um convívio doméstico com uma felina. E ele gostou, enquanto durou um ano de convívio; chamava a gata pela manhã, ela ficava sob sua cadeira, ele acariciava. Pai ido, fiquei com a gata que me acompanha como sombra. Já tem 8 anos, é chata, manhosa, birrenta, dominadora, marruda. Mas me reconhece como sua comparsa e me acorda todo dia às seis horas da matina.