16 de set de 2013

Perdeu-se, perdemos uma criança


Foi há uns seis meses. Estava sentado na entrada de um prédio na Av. Brigadeiro Luis António, próximo ao Viaduto Maria Paula. Educadamente pediu-me um troco. Olhei, reparei em suas roupas, pés descalços e sujos, e perguntei: o que você está fazendo aqui que não está na escola? Pergunta besta, mereceu uma resposta matreira: - Ah... já fui, pela manhã! - Mas são 11 horas! ponderei. - Saímos cedo... Comprei uma migalha, esmola com cara de coxinha, dei ao menino com cabelos castanhos claros, encaracolados, olhos de olhar o vago, diria até de um romantismo infantil, porque infância é bonita, é de ser sempre bem quista e amada... Ontem, encontrei-o! Parecia bastante feliz, sentado, mesmos pés descalços, sugava, em suprema felicidade uma lata de refrigerante, lábios quase do avesso, tamanha a força que usava. Dia seco, imaginei o líquido entrando pela goela, molhando a garganta de voz sumida. Sim, estava contente. Via-se pelas bochechas secas, que acompanhava o movimento da língua, e que se não era para um beijo estalado, era para sugar, sugar, sugar, sugar a latinha, sugando sonhos, imaginando imagens de prazer, o bem estar obtido com o nirvana prometido, o calor do sol, o afago do abraço, a infância bela, a criança do ECA, sugando os seus direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, proteção integral, todas as oportunidades e facilidades da vida, o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade, sugando os deveres da família, da comunidade, da sociedade, do poder público para a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, mais blás e blás, sugando o caldo do xarope aguado do refrigerante na latinha prata. Olhos fechados, em sonho enlevado, pálpebras a proteger os olhos de castanho vago, quase saltando, tão magro, naquela órbita que estava murcha, encovada e feia, cabeça rodeada pelos caracóis dos cabelos sujos. Nada me pediu tão profundamente entorpecido estava. Perdi a criança, perdemos a criança, tão próxima da Sé da fé, do Estado legal, da praça que é nossa. Mais uma.

Adriana Gragnani

Set 2013

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