28 de jun de 2015

Quadrado rosa bordado em azul

 

Sou um projeto executado e, portanto, findo. Sou uma peça quadrada, de 12 centímetros por 12 centímetros. Fui enfeitada com ponto a cheio, ponto sombra, crivo talvez, e um que no Brasil chamam de caseado. Sou estrangeira, mais que septuagenária. Desconheço a amplitude do projeto do qual sou parte acabada. Conheço, apenas, a mim e a mais 11 pequenos quadrados, aparentemente iguais.  Sim, aparentemente porque somos peças em azul e rosa, bordadas sobre linho, onde trama e urdidura perfazem, por centímetro quadrado, 30 fios. Contudo, não posso afirmar se temos a mesma quantidade de pontos e se fomos feitas por duas ou uma universalidade de mãos e, ainda, se a roca e a tensão dos dedos garantiram a uniformidade dos fios. Tenho estado em silêncio e meu tempo corre entre a imobilidade de uma gaveta ou de uma mala velha. Tocam-me quando sou transportada de um desses cantos a outros. Tenho poeira de mais de décadas. Fazem-me cócegas, mas não me deixam espirrar. Parece que fui projetada para ser um guardanapo. Pelo tamanho, entendo que eram para lábios pequenos, fechados,  e dedos. Jamais para proteção de roupa. E pelo que pude perceber da gula humana, guardanapo utilizado para servir um café, uma chávena de chá. Jamais uma feijoada. Considero-me bela e sei traduzir a intenção de olhos invejosos: gaveta ou mala velha de outra pessoa, de outra casa, não a permanência onde estou acomodada. Enfim, não sou dominada pela soberba, mas tenho orgulho do meu ser tão esmerado. Hoje fui retirada da mala e recebi o calor de um ferro. Fiquei embaçada com o vapor. Logo percebi que hidratou meus fios. Mas oh! Quentinha e ainda assimilando o meu espreguiçar, não percebi de momento. Fui usada para cobrir um copo de água. Não pela água, o meu infortúnio. Riqueza tão nobre e essencial, mereceria ser coberta com as mais ricas rendas, com os mais belos bordados, com as mais belas peças, iguais, em beleza, a mim. Fui usada...não! fui abusada para cobrir um copo de requeijão cheio de água. Não entendo mesmo a humanidade. Modelam-me à perfeição e depois se olvidam, não prestando atenção.

Adriana Gragnani

Junho 2015

2 comentários:

Maria Izabel disse...

Lindíssimo, se o olvidam é porque deles temos ciúmes e escondemos em grandes gavetas cheias dos mais estranhos tecidos...

Maria Izabel disse...

Lindíssimo, se o olvidam é porque deles temos ciúmes e escondemos em grandes gavetas cheias dos mais estranhos tecidos...