28 de mai de 2016

Você já se deixou olhar por um pássaro?



A conversa saiu solta, num final de domingo. Olhares percebidos em outros olhares, imagens de poesia caseira. A doçura do olhar de uma vaca mansa, a tranqüilidade do ver um cisne deslizando em lago. Vôos urbanos, humanos, em comiseração à existência real e concreta. Vôos da ilimitada fantasia que permitem o reparar do assombroso do gesto, o divagar sobre vôos alheios. Inquietude de seres que vislumbraram no aéreo bicho o gotejar da vida livre e bela, que fez surgir, naturalmente, a questão: você já se deixou olhar por um pássaro? Do olhar, passou-se ao seu beijo, do beijo a um provável olhar. Sem qualquer metáfora de encobrimentos, ou por romantismo, por safadeza ou por simples pudor, de membros, de partes humanas, sem qualquer metáfora que permitisse a memória do olhar doce de passarinhas. Você já se deixou olhar por um pássaro? O aéreo bicho, a pequena ave? Pergunta singela que, viu-se depois, causou espanto, causou encanto. Já fui observado por um canário engaiolado. Com pena de mim ele ficou, com pena de minha liberdade, engaiolada internamente. O aéreo pássaro! um breve olhar, rápido e fugaz, como o matar do vôo pelo salto de um gato. Da indagação surgida, a fuga para questão nunca pensada: não, sempre fui olhante. Por rotinas, por vidas mais atentas, por existência de janelas, aberturas para fora, sim, todas as manhãs, um canário da terra, amarelo, se chegava a mim. Comia o que para ele eu servia, bebia a água encontrada, cantava, sempre. E dessa comunhão receosa, de tímidos traquejos corporais, nos fitamos, olhos nos olhos, eu e ele, aéreo pássaro Vivaldi. Envoltório impermeável a sons diversos, seletivo de formas e cores, de caminhos, vestimenta interna de maneirice de quietude, condição para o olhar de olhos ariscos, da pequena ave. De cores vivas, de azul, escarlate, verde, longas penas, suave penugem, bicos curtos, velocidade ímpar, entre tantos, um beija-flor que queria realizar sua busca, busca do néctar da flor que via refletida no vidro. Olhar perdido nas falsas transparências, mas que se deseja como certeiro e sincero, deixe a ave - pela fragilidade, porque é pássaro, pela leveza, porque é aéreo, pela beleza, porque canta - contrapor as mágoas, sem julgamento, sentir restos de mil sonhos já tidos, que seja nada, que seja dor, que sinta pena, que seja alento. Você já se deixou olhar por um pássaro? O aéreo bicho, a pequena ave? Pombinha, a mexer a cabeça para lá e para cá, o que você quer? Me namorar? Pombinha, eu já tenho um namorar. Quem é você, Pombinha?Um bem-amar sempre a voar? Você já se deixou olhar por um pássaro? O aéreo bicho, a pequena ave? Estranha sensação de olhar...olha-se o pássaro? Ou ele que fita?

Adriana Gragnani - maio/2001

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