31 de out de 2015

Rememoração entre fitas e laços


Trinta e nove anos após chegar ao Porto de Santos, vinda do norte da Itália, com trabalho já arranjado em tecelagem paulistana, Eleonora assistiu ao casamento de sua filha, chamada pelo futuro marido de Li ou Lizinha. De ex-operária de tecido, já, então, com bom padrão de vida, no figurino rigoroso da época, aos poucos foi fazendo ou comprando as peças para o enxoval da filha, cujo noivado prolongou-se em parte da segunda guerra mundial até 4 anos após de seu término; o casório, em cerimônia bem montada, celebrado em manhã ensolarada de setembro. Véu sóbrio de tule, com pequenos bordados florais e barrados de renda francesa, a encobrir o vestido de cetim perolado, emolduram de felicidade o rosto cristalizado em fotos que ainda restam. Todo o belo conjunto harmonizado pela costureira portuguesa, Dona Margarida, moradora no Brás, com suas duas filhas, Dalva e Delfina. Do vestido e véu, sua filha lembra-se, pois com ele brincou em sua infância; da nobre costureira, recorda-se, pois dela ganhou um vestido de tule rosa, de várias saias, com delicados bordados, com fios prateados, ao completar 7 anos. Sua memória não guardou o destino dado ao vestido de noiva, hoje certamente nem mais trapos de uma festa esquecida pelo tempo passado. Contudo, uma lembrança ficou, bem guardada pela mãe, de primeiro embrulhada em papel de seda azul escuro, depois em papel de seda branco, sempre dentro de uma caixa de papelão. A filha, de posse de herança tão valiosa, com olhos de carinho observa as ligas de Maria Elisa, usadas naquele distante 7 de setembro de 1949. O destino fatal dos objetos será o definitivo desligamento da família que viu formar, indo parar no lixo. Pois, quem sabe sua história e seu valor? A quem interessa as histórias das miudezas de uma casa, dos sonhos de uma mulher? As ligas, de fitas de cetim azul claro, tem as bordas enfeitadas de delicadas rendas brancas, que na memória de sua atual detentora, constantemente a lhe pregar peças, sempre foram rendas amareladas pelo tempo. No arremate, pequeno enfeite de flor de laranjeira, feita de pano.  “Algo velho e algo novo/algo emprestado e algo azul*”. Quem sabe as pequenas flores, já velhas, não tenham vindo de Maria e de Elisa, as velhas avós de Maria Elisa, a Lizinha? E o azul, seria mesmo a cor do imenso mar, da pureza, do amor e fidelidade? O que teria sido emprestado dessa liga, que devolvido não faz falta? E com ela na mão, assim como fazia sua avó Eleonora com quem aprendeu a observar o pequeno, procura dar-lhe algum festejo, alguma exaltação, pois alguém, uma neta, um neto quem sabe? uma  bordadeira, uma louca talvez vai gostar de saber que Maria Elisa e Adolpho, no dia 7 de setembro, data histórica de independência, uniram-se em laços e ligas, para sempre.

“Something old and something new
Something borrowed and something blue*”.

(Estranhos Costumes de Casamento  e da Arte de Fazer a Corte – William J.Fielding, Editora Assunção Limitada, 1946).

Adriana Gragnani
Maio de 2014.

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