14 de ago de 2017

A toalha da mãe de alguém


Por onde passava, deixava um rastro de admiração. Suave, provavelmente doce? quase translúcida. Branca de sem sol. Via-se nela o azulado da anileira, que, se lhe dava formosura, também a vinculava a tradições da humanidade, acúmulo de sabedorias em tingir e colorir. Seu passado? Ninguém sabia. De onde viera? Alguns achavam que de um interior paulista ou de além-mar qualquer. Quando nascera? Ignorava-se sua idade. Quem sabe muito viajada já que se viam, na sua história revelada, pequenas flores aplicadas com ponto paris – “faz-se-lhe uma dobrazinha, alinhava-se a aplicação ao tecido e contorna-se com o ponto de Paris” – a cidade luz, momentaneamente, neste 2017, com luminosidade reduzida... E de seu sombreado conclui-se construída com linhas finas, de boa qualidade, o ponto sombra, com os quais se fazem “os mais delicados trabalhos, sobre organdi, trabalhando do avesso, as cores à transparência tomam uns tons de colorido muito fino.” Aqui e acolá, um bordado a cheio, terminando pequenos e mimosos galhos em pé de flor, no Brasil o ponto haste, que compõe tantos trabalhos. Ela chegou encolhida, dobrada e quase envergonhada pelas marcas destoantes dos vincos que não pudera esconder. Naquele dia sentiu-se feliz. Recebeu afagos carinhosos de mãos, que mesmo xeretas e curiosas, fizeram-na lembrar daquelas com as quais fora bordada. Novamente dobrada e guardada, por quantos dias, meses, décadas, permaneceria imóvel, com sua história a se perder?
Texto e foto Adriana Gragnani – agosto de 2.017

Referência de pontos – A Enciclopédia da Agulha, Lisboa, Portugal, Coleção Laura Santos, sem data.

Nenhum comentário: